segunda-feira, 4 de maio de 2015

Larga-me o fetiche

Há uns dias fiz report a uma página do facebook de uma comunidade que tinha como descrição o seguinte: “movimento que apoia a supremacia masculina como fetiche sexual e a capacidade da mulher se submeter ao homem de forma livre e consensual". Traduzido tal e qual da página dos senhores.
 
O que as pessoas fazem ao fim de semana ou sobre o que elas pensam quando andam de autocarro é lá com elas, a sério que sim, mas há que traçar uma linha na areia algures. Eu sei que quando se fala destas coisas e se tenta dizer "olha aí se calhar isso não é uma coisa lá muito saudável" começa tudo com ai ui que me estão a oprimir as liberdades pessoais. É complicado, admito que sim, mas se pensarmos um bocadinho na questão a coisa torna-se mais clara. Se a descrição desta página fosse "grupo de indivíduos que gosta de dar palmadas noutros indivíduos que apreciam levar palmadas" eu teria zero a dizer sobre o assunto, isto não tem nada de errado. No entanto, a descrição real aproxima-se mais de "grupo de indivíduos que gosta de dar palmadas noutro grupo de indivíduos porque acredita que este é inerentemente inferior". A diferença é subtil.
 
E sim, está shoehorned ali à bruta o termo consensual, qual afterthought forçado para não parecer tao mal. Mas quando o grupo tem coisas sobre como o feminismo não é natural e que as mulheres a sério submetem-se ao domínio masculino, se calhar é melhor darmos um passo atrás e questionar os motivos do pessoal envolvido.
 
Não vivemos num vácuo. Aquilo que achamos sexualmente atraente e excitante não surgiu por obra e graça do espírito santo. Vivemos numa sociedade que está constantemente a empurrar pela goela a baixo do pessoal que as mulheres são passivas e que isso é que é sexy, que os homens demonstram a sua paixão sendo dominantes em contextos sexuais e românticos. Normalmente este tipo de coisa propaga-se de forma insidiosa mas de vez em quando surgem assim coisas destas e o pessoal tenta mascarar a situação e argumentar que é um fetiche perfeitamente válido. Ok, 'tá bom. Fetiches há muitos, não quer dizer que estejam acima da crítica. "Ah e tal o meu fetiche envolve pegar fogo a estranhos e não me podem censurar! Cada um gosta do que gosta".
 
Não só acho que se deve criticar fetiches e o contexto cultural em que se inserem como julgo as pessoas pelo tipo de badalhoqueira que gostam de arejar em público. Estou a julgar uma data delas neste momento. É muito divertido, deviam experimentar.
 
Eu fiz report a este grupo usando lá a tag de "incentiva discurso de ódio" e recebi a indicação uns dias depois de que tinham olhado e não tinham visto nada de provocante por isso se calhar eu devia reavaliar as minhas opções. Pronto. Aparentemente estão no seu direito de sentir gratificação sexual ao oprimir e desumanizar um grupo inteiro de gente. Então eu estou no meu direito de ansiar pelo dia em que a sexualidade masculina tal como a conhecemos é inteiramente reprimida. Cada um tem o que merece.
 

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