Uma das minhas grandes desilusões este ano foi o
facto do documentário "Finding Vivian Maier" não ter ganho o Óscar.
Verdade seja dita, não vi nenhum dos outros nomeados mas isso dificilmente é
relevante neste momento.
A história de Vivian Maier enquanto artista é absolutamente
fascinante. Viveu e morreu na obscuridade e só quando um catraio há uns anos
comprou umas malas aleatórias cheias de negativos num leilão é que se descobriu
que ela era uma fotógrafa extremamente talentosa.
Vivian Maier tem uma história digna de qualquer
grande génio. Ninguém sabe ao certo se o sotaque francês dela era falso ou não,
colecionava notícias de jornal e imensos nicknacks que comprava ou reservava
usando um nome falso (ninguém sabe exatamente porquê), trabalhava como ama e há
relatos que dizem que ela era excelente com crianças e outros que dizem que era
abusiva, uma vez deu um soco a um homem e mandou-o para o hospital porque ele
lhe tocou no braço. Uma heroína, portanto.
Vivian, apesar de ter o seu quê de bicho-do-mato,
é uma verdadeira inspiração. Parece ter vivido exatamente como queria, numa sucessão
de sótãos. Não era particularmente bem-educada nem agradecida às famílias para
quem trabalhava. Despediu-se porque uma vez lhe estragaram os recortes de
jornal. Vivian não só era horrivelmente talentosa como tinha uma abordagem
extremamente inovadora à vida. Inovadora no sentido em que não queria saber de
ninguém nem de nada para além dela própria e da sua arte. Vivian Maier levava
crianças pequenas a matadouros, Vivian Maier tirava fotos a crianças que tinham
sido atropeladas, Vivian Maier sabia que tirava boas fotos embora nunca as
tivesse publicado nem tivesse qualquer input externo sobre elas.
Vivian Maier não queria saber. Vivian Maier era
feita de ferro e de gelo.

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