Gafes publicitárias há muitas mas volta e meia
aparece uma coisa tão escandalosamente estúpida e desatualizada que uma pessoa
pensa que se calhar arranjaram uma máquina do tempo para ir buscar um estudante
de marketing qualquer dos anos oitenta chamado Ricardo Jorge.
Hoje foi esta:
Isto combina duas das coisas que me metem mais
nojo neste mundo: pseudociência e sexismo. Para já, os senhores da Neurozan são
terríveis e deviam sentir-se terríveis porque vendem suplementos que
supostamente estimulam o cérebro mas não oferecem qualquer prova científica de
que realmente funcionem e estudos peer reviewed nem por um canudo. Já tinha
visto algum dos posters deles espalhados lá pela faculdade que diziam
"elas gostam é dos inteligentes" o que é perfeitamente ridículo. Para
já não estão sequer a tentar apelar a metade da comunidade estudantil (se
calhar acham que as mulheres não estudam) e depois, vou ser muito sincera, elas
não "gostam é dos inteligentes" elas gostam é que as deixem em paz e
que as respeitem. Não é difícil.
Depois, quando uma senhora na secção dos
comentários os tentou chamar à razão, foi recebida com mais uma enxurrada
pseudocientífica e extremamente condescendente de quem quer que seja que gere a
página do facebook destes charlatões:
O cérebro humano é uma coisa extremamente
complexa e ninguém com o mínimo de senso comum seria capaz de afirmar que isto
das diferenças biológicas é open and shut. É muito difícil fazer estudos
fidedignos relativamente a diferenças de comportamento e há muita literatura
detalhada que diz que não há diferenças significativas entre cérebros
masculinos e femininos, que a diferença entre indivíduos é esmagadoramente
superior a quaisquer características que se tentem aplicar a um grupo de
pessoas, e que a influência das hormonas na personalidade das pessoas tem
sido abundantemente sobrestimada ao longo dos anos. Eu podia pôr aqui links
para os artigos mas, quando comecei este blog, decidi que não ia ser uma coisa
académica e que não estava para me chatear com estas coisas. Nos dias que
correm só é ignorante sobre estas coisas quem quer. Usem o tio google, que
ajuda muita boa gente.
Para além disso, o pessoal parece preferir
anedoctal evidence por isso não acho que valha a pena estar aqui a gastar a
ponta dos dedos. Sinceramente, basta dizer coisas como "não acho piadas
sobre violação engraçadas" ou "acho que a indústria dos videojogos é
sexista" ou ainda "patriarcado" ou "a friendzone não
existe" e a maioria dos homens degenera na maior birra de sempre. É
embaraçoso, a sério que sim, já vi acontecer. Depois disto ninguém me convence
de que as mulheres é que são emocionais. Uma vez disse a um colega meu da
faculdade que ele era ignorante e claramente não muito esperto porque achava
que a Coreia do Norte tinha um sistema político à maneira e ele escreveu-me um
email com 4 parágrafos sobre como eu era má e ruim e uma megera feminista muito
desagradável. Já esteve mais longe da verdade.
Eu pensava que por muito mal que isto andasse já não
achávamos socialmente aceitável (nem factualmente correto) dizer coisas como
"os homens são bons a matemática e as mulheres dão boas educadoras de
infância", até porque me parece que isto já foi demonstrado ser falso
vezes sem conta.
Há uma grande porção da população que beneficia
em meter os dedos dos ouvidos e negar veementemente coisas perfeitamente
normais. Acho que só quando, inevitavelmente, houver mais mulheres em STEM do
que homens e os decidirmos manter apenas como estudantes de filosofia e
daquelas engenharias parvas que não interessam a ninguém para os manter
ocupados, é que isto acalma.


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