Hoje li uma coisa muito interessante. Eu desconhecia que o senhor
que a escreveu existia sequer (e agora, em retrospetiva, sentia-me muito
abençoada) e que ainda havia gente assim tão reacionária, mas, enfim, vivemos
num mundo cheio de surpresas.
Este senhor acha que enfrentamos um grande problema
que passa pela destruição do conceito tradicional de família e pela recusa
teimosa das mulheres em terem crianças.
Aparentemente as "novas famílias" são muito
voláteis e instáveis. Sendo que a aparente causa desta instabilidade passa pelo
facto de as mulheres já não quererem ter filhos antes dos 20 (embora esteja
provado que este tipo de prática é muito pouco saudável tanto para as crianças
como para as mulheres) e de só quererem andar na galderice a ser umas
badalhocas. De certo que este senhor também deve achar que os
temíveis gays também entram aqui na equação algures embora nem eu nem ele
tenhamos a certeza relativamente ao seu papel neste caso. Ele fala muito no que
é perverso e no que não é e acho que a meio do artigo já ele estava confuso.
Acho sempre imensa graça quando alguém escreve um
artigo sobre como está tudo na desgraça e que já ninguém adere aos bons velhos
costumes. É sempre hilariante ver as tentativas histéricas e vãs de homens
cujas opiniões deixaram de ser relevantes há muito tempo de travar o progresso
que não lhes convém e a emancipação de grupos oprimidos. O artigo parece-me
todo uma birra pública bastante embaraçosa. Ninguém consegue levar a sério
alguém que diz coisas como:
"É verdade que a emancipação da mulher a masculiniza, desprezando as características femininas, no esforço obsessivo de as provar capazes em jogos de homens. É verdade que, em nome da liberdade sexual radical, se abandonam dignidade e equilíbrio, sacrificando essa liberdade no altar do deboche."
(Pessoalmente,
eu gosto de sacrificar pelo menos três liberdades aos fins-de-semana. Mas não
as minhas, as dos outros.)
Francamente. Zero self-awareness. Este senhor não
compreende que o esforço que fizemos não foi tanto para sermos bem-sucedidas
em coisas de homem (tipo andar à porrada? caçar ursos? cortar madeira?) mas
para que reconhecessem que já éramos boas nessas coisas há muito
tempo, ninguém queria era admitir.
Este senhor também não compreende que isto vai
mais fundo do que ele pensa. Se me dissessem que a humanidade ia acabar daqui a
10 anos se eu não me conformasse a ter crianças (coisa que não está nem de
perto nem de longe em risco de acontecer) eu seria a primeira a querer
fazer da extinção desta puta de raça. Este tipo de retórica não me comove. Já não
comove ninguém.
As mulheres estão finalmente a pôr-se a elas próprias
em pé de igualdade com os homens e a exigir exatamente tudo
aquilo que os homens sempre tiveram por direito. Se isso é
"masculinizar-nos" e não "querer ser tratadas como gente" então
que seja. Se as características tradicionalmente femininas são tao boas e giras
então o senhor João César das Neves pode ficar com elas todas, eu não importo.
Ninguém se importa. Ele pode ser dócil e fofinho e sorridente e muito maternal.
A minha onda é mais outra.
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