quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Story time (ou: eu estou muito zangada e vou spoilar o Whiplash)

Juro que a esta altura acho que não vou conseguir sobreviver a esta temporada dos Óscares. Tenho pus a sair da orelha direita há duas semanas e, muito sinceramente, começo a achar que se deve a ter ido quase todas as semanas ao cinema ver os candidatos a melhor filme. Não há outra explicação, o nojo que sinto é tal que a única maneira de que arranjou de não entrar na minha corrente sanguínea e mirrar-me o coração foi condensar-se todo no meu tímpano direito e ir exsudando bocados de nojo a pouco e pouco ao longo de 12 dias.
 
Há filmes que me ofendem pessoalmente, outros causam-me nojo. Eu tenho uma espécie de intuição parva nestas coisas e raramente me engano, quando vou ler um livro ou ver um filme consigo saber se vou adorar ou detestar. Estava a espera de não gostar de alguns mas não estava à espera do nojo.
 
Sabia que ia detestar o Birdman, o Imitation Game, o Theory of Everything (que ainda não vi e embora ache que não vai ser tao mau como o Imitation Game nao me parece que me vá agradar) e o American Sniper, que é basicamente uma paródia de si próprio. Eu também achava que sabia que ia gostar do Boyhood (e gostei), adorar o Selma (que ainda não vi mas é a minha última esperança) e que ia gostar do Whiplash.
 
Estava tão convencida de que ia gostar do Whiplash. Mesmo. Não foi como nos outros, não me podiam acusar de ir já inclinada para cuspir para o ecrã. Não senhor. Mas a minha irmã toca bateria. A minha irmã toca bateria e eu já tive um Fletcher na minha vida. Ou vá, uma versão feminina que nunca levantou a mão a ninguém embora vontade não faltasse. O nome dela começava por F e tudo e fazia as pessoas saírem a chorar do laboratório (e nem era só uma lágrima, eram várias).
 
Temos então aqui dois pontos fulcrais de nojo. Um deles é que eu já vi uma professora ser abertamente hostil, prejudicar quem lhe mostra os dentes e desfrutar de forma quase pornográfica de enxovalhar os seus alunos. O meu problema com o Whiplash é que naqueles minutos finais dá a entender que, só quando deparado com a quantidade certa de oposição, é que o ser humano é capaz de ser genial. E isto é uma mentira nojenta. O génio não é uma coisa para arrancar à dentada das pessoas. Não é uma coisa estática que precise de ser desbloqueada com a combinação certa de "incompetente, burra, preguiçosa, tens falta de brio". O génio constrói-se e pratica-se e trabalha-se e está em tudo o que se faz e se é.
Preguiçoso é achar que ou se nasce com talento ou então temos pena. É preguiçoso e cobarde. Não há cá nascer abençoado pelos astros, passa-se uma vida inteira a construir uma pessoa que, se tudo correr bem, é uma combinação perfeitamente agradável de quinquilharias que se foi apanhando pelo caminho.

Quem quer que seja que escreveu o guião não sabe nada de talento nem de inspiração e menospreza gravemente a influência que o cinema tem nas pessoas. O que me traz ao meu segundo ponto.

A minha irmã toca bateria.
 
De todos  os instrumentos que ela sabe tocar, o que mais a entusiasma é a bateria. E para além disso ela é a melhor do ano dela em percussão. Ela lê música e adora escalas e quer saber dirigir e já toca mais instrumentos do que há cores no arco-íris.
Quando cheguei a casa e disse que não tinha gostado do filme ela perguntou-me se teria gostado mais se o baterista fosse uma menina (é dos poucos casos em que provavelmente teria gostado menos) e depois perguntou-me se teria gostado mais se o baterista fosse ela. Bem. Aí apeteceu-me lavar-lhe a boca com sabão. Eu preferia que formigas carnívoras radioativas comessem o que resta do meu tímpano infetado e o substituíssem por excrementos que brilham no escuro do que ver uma figura de autoridade abusar física e psicologicamente da minha irmã  porque tem uma noção arcaica e fracamente errada do  que é ser talentoso. O talento da minha irmã é cultivado por pessoas que gostam dela e que querem vê-la ser bem-sucedida. Ela não é menos brilhante por causa disso. Ela não é menos brilhante nem vai revelar menos potencial porque não teve um homem de meia-idade com um god complex e uma clara falta de amor materno a gritar com ela. E, deusa me perdoe, eu juro que luto com quem quer que seja que queira sequer pensar que isso é verdade.
 
E uma última coisa. Que eu me lembre, apareceram duas moças em todo o filme. A primeira tocava uma corneta qualquer e apareceu no início apenas o tempo suficiente para darem a entender que apenas estava no grupo principal da banda porque era bonita. A segunda namora brevemente com o protagonista, depois acabam, depois ela arranja outro namorado. Não compreendo qual é a vantagem de terem escrito tal personagem. É como se o guionista, um homem adulto, nunca tivesse interagido com uma mulher na vida real.
 
A minha mãe ainda me perguntou se podia ter levado a minha irmã a ver o filme. Antes de ver o filme, ainda achei que fosse giro para ela mas não obrigada, não há lá nada que eu queira que ela veja. Nem o género dela a ser mastigado e cuspido nem idiotas a definirem por ela o que é sucesso. Estamos bem. Eu vou construir uma cúpula à volta dela onde tudo é excelente e as meninas pequenas que gostam de música têm acesso a filmes giros e a positive reinforcement.
 
Este ano peço ao pai natal que queime todas as cópias do Whiplash para ver se me aquece o coração. Isto anda muito mal.

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