quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Soldados de palha

Acho que já é mais do que óbvio que o sistema de ensino em Portugal é péssimo. Não bom. Definitivamente menos do que excelente. Sufoca as crianças e cria indivíduos que são bons a responder a testes standard e não necessariamente que gostam de aprender e que sabem fazê-lo de forma eficiente e saudável.
 
Ninguém gosta particularmente de ir à escola e normalmente as boas experiências contam-se pelos dedos. É triste, é verdade. E é triste para toda a gente.
 
Por isso, acho positivamente hilariante quando leio coisas que dizem que o sistema de ensino está contra os rapazes. Não, oiçam, o sistema de ensino não desfavorece pessoas que têm um background de pobreza e não há racismo institucionalizado nas escolas. Não, não. Os professores também não são sexistas. O sistema de ensino apontou o dedo aos rapazes brancos de classe média e agora eles saem-se mal. Coitados. Mas são só eles. Exclusivamente.
 
Um bocado de vergonha na cara não ficava mal a ninguém.
 
Já ouvi dizer que o sistema de ensino pune comportamento tipicamente masculino e recompensa as meninas e é por isso que daqui a uns anos vamos ter muito mais mulheres na faculdade e a cabala feminista que controla secretamente o mundo vai conseguir empurrar os homens apenas para manual labor. Talvez não a parte da cabala feminista, mas o resto já ouvi. Isso garanto.
 
A minha mãe conhece uma senhora que tem um filho mais ou menos da idade da minha irmã que, juntamente com uns amiguinhos, atou uma rapariga na escola e arrastou-a mais ou menos aos gritos para a casa de banho. Isto quando andava na escola primária. A escola não puniu de forma particularmente (nem menos particularmente)  grave o catraio e a mãe pareceu orgulhosa por ter um filho tao machão. Prioridades, I guess. A senhora estava convencida também que a razão pelo qual o filho se saía tao mal na escola tinha mais a ver com o facto de ele ser muito incompreendido e menos a ver com o facto de ele ser um total fucking asshole sem qualquer tipo de limites.
 
Acho esta história perfeitamente bizarra, vou ser sincera. Como a maioria das coisas péssimas, o sistema atual de educação foi criado e legislado por homens mas agora queixam-se porque as meninas saem-se melhor? Nunca estão contentes. Se somos boas devíamos estar quietas, se somos más somos umas inúteis e só nos queremos aproveitar do trabalho árduo dos homens.
 
É claro que acho preocupante se uma porção da sociedade se está a sair mal na escola mas, neste caso em particular, não consigo arranjar pena nenhuma. As meninas na escola arranjaram maneira de sobreviver, conformando-se ao que era pedido delas porque ninguém responde de forma positiva a ser desafiado por raparigas (muito menos professores em posições de autoridade, tenho uma história gira sobre quando corrigi a pronúncia inglesa de um professor de história) e elas não se podem esconder atrás  de "é mesmo assim". Nós não temos direito a "girls will be girls". Ninguém tolera desobediência a mulheres.
 
De certeza que algures no tempo alguém parou para pensar e chegou à conclusão de que não é por acaso que os alunos mais problemáticos são sempre rapazes. É pena a opinião geral sobre assunto ser mais "os rapazes são perseguidos porque os professores gostam mais das meninas" e menos "a sociedade e os pais educam os rapazes de forma errada e, olhem para isto, agora comportam-se que nem uns animais".
 
E mais, eu dou explicações a juventudes de muitas idades e há uma diferença abismal entre rapazes e raparigas. Para já, tenho muito mais explicandas do que explicandos. As raparigas estão muito mais dispostas a pedir ajuda e a trabalhar para obter resultados (ou são mais empurradas pelos pais) e o discurso delas é muito diferente. Mesmo as mais frouxas têm uma postura de "o que é que posso fazer para melhorar?" e "isto é difícil, tenho que me esforçar mais se quero ter boa nota". O único catraio que me veio ter às mãos estava mais numa de "o professor não gosta de mim" e "não pude estudar porque isto, isto e isto". Desculpas, desculpas, desculpas. Os rapazes desresponsabilizam-se porque ninguém lhes ensinou que eles são responsáveis pelos seus próprios falhanços.
 
Uma das minhas crianças, trabalhadora e espertinha de natureza, tem sempre notas mais do que aceitáveis e compreende tudo o que lhe explico à primeira (e o que não percebe pergunta, o que é tão ou mais importante) mas diz-me que o irmão é sobredotado. O irmão que está para tirar um curso superior não muito difícil há bem mais do que 3 anos. Diz-me também que tem um colega de turma espertíssimo, igualmente sobredotado, o moço convenceu-a durante um teste a mudar uma resposta de escolha múltipla que ela tinha certa para mal. Ela acreditou porque ele lhe garantiu que tinha a certeza absoluta. E ele é muito esperto. Ela não é mas ele é. Tão esperto, está visto.
 
Nossa senhora deus me fucking acuda.

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