Acho que já é mais do que óbvio que o sistema de
ensino em Portugal é péssimo. Não bom. Definitivamente menos do que excelente.
Sufoca as crianças e cria indivíduos que são bons a responder a testes
standard e não necessariamente que gostam de aprender e que sabem fazê-lo de
forma eficiente e saudável.
Ninguém gosta particularmente de ir à escola e
normalmente as boas experiências contam-se pelos dedos. É triste, é verdade. E
é triste para toda a gente.
Por isso, acho positivamente hilariante quando leio
coisas que dizem que o sistema de ensino está contra os rapazes. Não, oiçam, o
sistema de ensino não desfavorece pessoas que têm um background de pobreza e não
há racismo institucionalizado nas escolas. Não, não. Os professores também não são
sexistas. O sistema de ensino apontou o dedo aos rapazes brancos de classe
média e agora eles saem-se mal. Coitados. Mas são só eles. Exclusivamente.
Um bocado de vergonha na cara não ficava mal a
ninguém.
Já ouvi dizer que o sistema de ensino pune
comportamento tipicamente masculino e recompensa as meninas e é por isso que
daqui a uns anos vamos ter muito mais mulheres na faculdade e a cabala
feminista que controla secretamente o mundo vai conseguir empurrar os homens
apenas para manual labor. Talvez não a parte da cabala feminista, mas o resto
já ouvi. Isso garanto.
A minha mãe conhece uma senhora que tem um filho
mais ou menos da idade da minha irmã que, juntamente com uns amiguinhos, atou
uma rapariga na escola e arrastou-a mais ou menos aos gritos para a casa de
banho. Isto quando andava na escola primária. A escola não puniu de forma
particularmente (nem menos particularmente) grave o catraio e a mãe
pareceu orgulhosa por ter um filho tao machão. Prioridades, I guess. A senhora
estava convencida também que a razão pelo qual o filho se saía tao mal na
escola tinha mais a ver com o facto de ele ser muito incompreendido e menos a
ver com o facto de ele ser um total fucking asshole sem qualquer tipo de
limites.
Acho esta história perfeitamente bizarra, vou ser
sincera. Como a maioria das coisas péssimas, o sistema atual de educação foi
criado e legislado por homens mas agora queixam-se porque as meninas saem-se
melhor? Nunca estão contentes. Se somos boas devíamos estar quietas, se somos
más somos umas inúteis e só nos queremos aproveitar do trabalho árduo dos
homens.
É claro que acho preocupante se uma porção da
sociedade se está a sair mal na escola mas, neste caso em particular, não
consigo arranjar pena nenhuma. As meninas na escola arranjaram maneira de sobreviver,
conformando-se ao que era pedido delas porque ninguém responde de forma
positiva a ser desafiado por raparigas (muito menos professores em posições de
autoridade, tenho uma história gira sobre quando corrigi a pronúncia inglesa de
um professor de história) e elas não se podem esconder atrás de "é
mesmo assim". Nós não temos direito a "girls will be
girls". Ninguém tolera desobediência a mulheres.
De certeza que algures no tempo alguém parou para
pensar e chegou à conclusão de que não é por acaso que os alunos mais
problemáticos são sempre rapazes. É pena a opinião geral sobre assunto ser mais
"os rapazes são perseguidos porque os professores gostam mais das
meninas" e menos "a sociedade e os pais educam os rapazes de forma
errada e, olhem para isto, agora comportam-se que nem uns animais".
E mais, eu dou explicações a juventudes de muitas
idades e há uma diferença abismal entre rapazes e raparigas. Para já, tenho
muito mais explicandas do que explicandos. As raparigas estão muito mais dispostas
a pedir ajuda e a trabalhar para obter resultados (ou são mais empurradas pelos
pais) e o discurso delas é muito diferente. Mesmo as mais frouxas têm uma
postura de "o que é que posso fazer para melhorar?" e "isto
é difícil, tenho que me esforçar mais se quero ter boa nota". O único
catraio que me veio ter às mãos estava mais numa de "o professor não gosta
de mim" e "não pude estudar porque isto, isto e isto".
Desculpas, desculpas, desculpas. Os rapazes desresponsabilizam-se porque
ninguém lhes ensinou que eles são responsáveis pelos seus próprios falhanços.
Uma das minhas crianças, trabalhadora e
espertinha de natureza, tem sempre notas mais do que aceitáveis e compreende
tudo o que lhe explico à primeira (e o que não percebe pergunta, o que é tão ou
mais importante) mas diz-me que o irmão é sobredotado. O irmão que está para
tirar um curso superior não muito difícil há bem mais do que 3 anos. Diz-me
também que tem um colega de turma espertíssimo, igualmente sobredotado, o moço
convenceu-a durante um teste a mudar uma resposta de escolha múltipla que ela
tinha certa para mal. Ela acreditou porque ele lhe garantiu que tinha a certeza
absoluta. E ele é muito esperto. Ela não é mas ele é. Tão esperto, está visto.
Nossa senhora deus me fucking acuda.
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