Há coisas que não têm graça. Eu há algum tempo
seria capaz de defender humor que envolvesse racismo, sexismo, violações e
outras coisas menos family friendly mas agora não só acho que esse
tipo de humor é desnecessariamente ofensivo como é preguiçoso. Humor preguiçoso
é o pior tipo de humor. Um verdadeiro crime. A minha irmã, uma criança, é
perfeitamente capaz de identificar este tipo de coisa e dizer que não tem graça
e porquê. Estamos a falar de uma criança que acha que dizer bunda é a epítome
da comédia.
Mas mesmo assim, é capaz de chegar ao pé de
mim e dizer-me "olha, no outro dia os meus amiguinhos das aulas de música
estiveram a contar piadas racistas que não tinham piada nenhuma. Nem chegavam a
ser piadas". Quando lhe perguntei o que eram para ela piadas racistas ela
disse-me que eram piadas em que a punchline era pura e simplesmente "as
pessoas de cor são mais burras do que as brancas".
Isso é efetivamente muito racista. E não muito
engraçado.
Ela disse-me também que tinha feito questão de
bater com o pé no chão e dizer-lhes para pararem de ser racistas (a minha mãe
criou duas princesas-guerreiras e uma alma poética muito sensível, mas o meu irmão
não é para aqui chamado). Perante isto, o professor dela, que já devia ser
maior e vacinado, com um bocadinho de juízo, disse-lhe que eles só eram assim
ofensivos e usavam a palavra pr*to repetidamente em frente às crianças e
adolescentes de cor lá da escola de música porque queriam que eles se
habituassem, para que não ficassem tristes quando os tratassem assim na
escola normal.
Devo dizer que fiquei impressionada. Nunca na
vida tinha ouvido uma lógica tao retorcida e abertamente merdosa. Que tipo de
besta é que tem que se ser para tratar mal propositadamente crianças com o
intuito de as habituar a serem vistas como menos-que-gente? Como é que podem
achar que isto é saudável?
Nós, europeus que sofreram na pele uma ditadura,
europeus Ferguson-nunca-aconteceria-cá, ainda dizemos coisas desta. Ainda
achamos normal humilhar crianças para elas saberem o lugar delas e com o que
devem contar ao longo da vida. Ainda queremos normalizar o racismo para que
elas cresçam a achar normal serem tratadas assim.
Depois venham cá dizer-me que "são eles que não
se importam" que lhes chamem pr*tos.
“Eles gostam”.
São “eles que não se importam” ou são vocês que
lhes martelam estas coisas desde pequeninos? Não pode ser as duas coisas.
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