A minha mãe, fonte de inspiração constante que é,
encostou-se ao radiador na semana passada e perguntou-me se podia ter um
blog também. Embora gostasse, não sou a carcereira da internet. Como é óbvio, respondi-lhe
sim, vai por esse mundo fora e multiplicai-vos. Diz-me ela então, extremamente
entusiasmada, que gostava imenso de escrever sobre a invisibilidade das
mulheres, qual paródia perfeita de uma dona de casa dos anos 50 que decide
escrever uma coluna sobre ponto cruz.
No entanto, a minha mãe é o sol e a lua e as
estrelas e, embora tenha o talento e a motivação, dificilmente tem tempo para
escrever coisas e atirá-las para a internet (ou para qualquer outro lado). Por
isso eu tento estar atenta a estas coisas para servir de blogger-de-aluguer. Às
vezes não concordamos e eu sou um bocado uma
juventude-com-a-mania-que-é-esperta mas diria que as nossas opiniões têm
overlap suficiente para eu conseguir reproduzir mais ou menos o que ela acha. E
uma vez que ela não disse mais nada sobre o assunto (e se calhar já se esqueceu
que falou disso à minha frente) é muito possível que eu apenas consiga uma
modesta aproximação do que lhe passou pela cabeça.
A verdade é que as mulheres andam desaparecidas,
ou "desapareceram-nas" (é uma diferença muito ténue).
As raparigas nas salas de aula (estamos a falar
do jardim de infância à universidade e de tudo o que está entre e além disso) não
têm voz, são afogadas todos os dias por rapazes a quem nunca disseram que, se
calhar, o que têm para dizer não interessa a ninguém. Rapazes cuja confiança
nas alarvidades que dizem é inabalável, enquanto as meninas roem-se
internamente mil vezes antes de falar porque para serem levadas a sério têm que
ser infalíveis. Para acharem que são metade têm que ser o dobro.
Também não contamos na política, a não ser que
subscrevam a uma visão homeopática da coisa. Não só há (relativamente) poucas
mulheres na política como os nossos interesses sao representados de
forma risível, coisas de fundo-de-barril legisladas por homens que pouco ou
nada sabem sobre ser tratado como um cidadão de segunda categoria e que, volta
e meia, ainda dão beliscões no rabo das secretárias.
Não temos os cargos de topo, não temos os cargos
visíveis. Tudo o que as mulheres têm para mostrar foi arrancado a saca-rolhas. Não basta
“merecermos”, temos que conquistar.
Quando digo que os sistemas de quotas são
coisas positivas ainda me atiram à cara que estamos a roubar lugares a
homens "merecedores". O problema é que eles, que nasceram
com uma colher de prata enfiada em todos os orifícios corporais, acham que
"merecem" coisas e as devem receber porque as
"merecem". Aqui deste lado ninguém merece porra nenhuma, somos 30 cães
a um osso e toda a gente tem fome.
As mulheres, na sua invisibilidade, vão e vêm e
ninguém quer saber. Primeiras e últimas vítimas da guerra, mortas por namorados
e maridos que ficam por condenar, executadas por existir, dizer que não, dizer
ou fazer a coisa errada na altura errada.
Não estamos nas televisões, a não ser como decoração de fundo. Não temos representação significativa. Sim, porque para ser significativa tem que se exatamente a mesma, nem mais nem menos, que é um conceito que escapa a muita gente. Sempre que digo que não existimos nesse universo dos filmes-séries-e-jogos contam-me pelos dedos as personagens femininas "fortes" que conhecem, como se isso provasse alguma coisa. A não ser que sejam 50 centopeias coladas umas às outras não vale a pena contarem o que quer que seja com os dedos porque por cada personagem feminina merdosa colada com cuspo e escrita medíocre há 10 ou 20 personagens menos femininas que tiveram direito a representar coisas que existem realmente no mundo real.
Depois venham cá queixar-se que não estamos aqui
e a ali quando já era mais que tempo de estarmos, fazermos e acontecermos.
É difícil ser aquilo que não se consegue ver.
Algumas de nós se calhar não são nada porque não sabem ser outra coisa.
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