quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Agora não

A minha mãe, fonte de inspiração constante que é, encostou-se ao radiador na semana passada e perguntou-me se podia ter um blog também. Embora gostasse, não sou a carcereira da internet. Como é óbvio, respondi-lhe sim, vai por esse mundo fora e multiplicai-vos. Diz-me ela então, extremamente entusiasmada, que gostava imenso de escrever sobre a invisibilidade das mulheres, qual paródia perfeita de uma dona de casa dos anos 50 que decide escrever uma coluna sobre ponto cruz.
 
No entanto, a minha mãe é o sol e a lua e as estrelas e, embora tenha o talento e a motivação, dificilmente tem tempo para escrever coisas e atirá-las para a internet (ou para qualquer outro lado). Por isso eu tento estar atenta a estas coisas para servir de blogger-de-aluguer. Às vezes não concordamos e eu sou um bocado uma juventude-com-a-mania-que-é-esperta mas diria que as nossas opiniões têm overlap suficiente para eu conseguir reproduzir mais ou menos o que ela acha. E uma vez que ela não disse mais nada sobre o assunto (e se calhar já se esqueceu que falou disso à minha frente) é muito possível que eu apenas consiga uma modesta aproximação do que lhe passou pela cabeça.
 
A verdade é que as mulheres andam desaparecidas, ou "desapareceram-nas" (é uma diferença muito ténue).
 
As raparigas nas salas de aula (estamos a falar do jardim de infância à universidade e de tudo o que está entre e além disso) não têm voz, são afogadas todos os dias por rapazes a quem nunca disseram que, se calhar, o que têm para dizer não interessa a ninguém. Rapazes cuja confiança nas alarvidades que dizem é inabalável, enquanto as meninas roem-se internamente mil vezes antes de falar porque para serem levadas a sério têm que ser infalíveis. Para acharem que são metade têm que ser o dobro.
 
Também não contamos na política, a não ser que subscrevam a uma visão homeopática da coisa. Não só há (relativamente) poucas mulheres na política como os nossos interesses sao representados de forma risível, coisas de fundo-de-barril legisladas por homens que pouco ou nada sabem sobre ser tratado como um cidadão de segunda categoria e que, volta e meia, ainda dão beliscões no rabo das secretárias.
 
Não temos os cargos de topo, não temos os cargos visíveis. Tudo o que as mulheres têm para mostrar foi arrancado a saca-rolhas. Não basta “merecermos”, temos que conquistar.
Quando digo que os sistemas de quotas são coisas positivas ainda me atiram à cara que estamos a roubar lugares a homens "merecedores". O problema é que eles, que nasceram com uma colher de prata enfiada em todos os orifícios corporais, acham que "merecem" coisas e as devem receber porque as "merecem". Aqui deste lado ninguém merece porra nenhuma, somos 30 cães a um osso e toda a gente tem fome.
 
As mulheres, na sua invisibilidade, vão e vêm e ninguém quer saber. Primeiras e últimas vítimas da guerra, mortas por namorados e maridos que ficam por condenar, executadas por existir, dizer que não, dizer ou fazer a coisa errada na altura errada.

Não estamos nas televisões, a não ser como decoração de fundo. Não temos representação significativa. Sim, porque para ser significativa tem que se exatamente a mesma, nem mais nem menos, que é um conceito que escapa a muita gente. Sempre que digo que não existimos nesse universo dos filmes-séries-e-jogos contam-me pelos dedos as personagens femininas "fortes" que conhecem, como se isso provasse alguma coisa. A não ser que sejam 50 centopeias coladas umas às outras não vale a pena contarem o que quer que seja com os dedos porque por cada personagem feminina merdosa colada com cuspo e escrita medíocre há 10 ou 20 personagens menos femininas que tiveram direito a representar coisas que existem realmente no mundo real.
 
Depois venham cá queixar-se que não estamos aqui e a ali quando já era mais que tempo de estarmos, fazermos e acontecermos.
É difícil ser aquilo que não se consegue ver. Algumas de nós se calhar não são nada porque não sabem ser outra coisa.

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