domingo, 5 de outubro de 2014

O mito do pós-ismos


Há muita gente que acha que vivemos numa sociedade pós-sexista, pós-racista e pós todas as coisas desagradáveis.

Já fizeram o favor às mulheres de as deixarem votar e já não é de bom-tom comentar a superioridade da raça branca nas dinner parties. Pronto. Podemos todos ir para casa. Bom trabalho!

Gente que acha isto está, no entanto, horrivelmente errada e devia sentir-se mal. Vivemos na era das microagressões, do sexismo e racismo insidioso que se esconde atrás de aparentes boas intenções. Se há coisa que me deixa à beira de um derrame é, quando estou a tentar explicar alguma coisa que eu tenha testemunhado e/ou vivido em primeira mão que envolva sexismo ou racismo ou uma dessas coisas, dizerem-me "não". Ou "isso não é bem assim" ou "nunca vi isso acontecer". Não tentam argumentar ou explicar o seu ponto de vista (porque não têm). Simplesmente negam uma coisa que me aconteceu pessoalmente ou que vi acontecer ou que aconteceu a alguém próximo de mim. Negam negam negam. Olham para mim com olhos mortiços e negam.

 

Garanto-vos que se algum dia esta gente se vier queixar que alguém lhes deu um murro na cara eu vou simplesmente dizer que não acredito e como pessoalmente nunca levei um murro na cara ou vi alguém levar um murro na cara não acho que tal coisa aconteça sequer. Talvez há 20 anos. Mas definitivamente não agora. Já ninguém leva murros na cara, é uma coisa do passado.

 

Quando me pedem exemplos de que ainda existe sexismo (como se eu tivesse que justificar a existência de uma coisa tao óbvia) ainda me dou ao trabalho de lhes falar dos senhores que me rosnam à porta do metro e que comentam alto o tamanho do meu peito, do professor de teatro do oitavo ano que para descrever passos de dança dizia às alunas para "porem a mão no clitóris" (como se ele soubesses sequer onde tal coisa fica sequer), dos professores da universidade que nunca me perguntaram o nome e que simplesmente me chamavam "coisinha fofa", que deixavam as mãos pousarem onde queriam. Conto-lhes como, quando decidi mudar para um curso tradicionalmente populado por homens, me disseram "só lésbicas vão para isso" e como vi, durante anos, rapazitos serem coroados os mais espertos e especiais da aldeia quando não eram nem uma coisa nem outra.

 

Digo-lhes também que vi auxiliares educativas (no meu tempo eram contínuas mas já ouvi dizer que agora a nomenclatura é diferente) referirem-se a alunos de cor como "estes pr*tos" e "animais" e "selvagens", vi o sistema de ensino premiar e louvar os talentos artísticos de colegas "abençoadamente" brancas e ignorar completamente o das colegas menos brancas. Mesmo na universidade já me contaram como há sussurros racistas nos elevadores e em trabalhos de grupos. Como há uma desconfiança latente em alunos e professores. Como há valores que desaparecem misteriosamente.

 

E depois disto tudo ainda me dizem "isso não é bem assim".

 

Então é como?

 

 

 

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