Eu sou virulentamente anti-praxe. Acho que é uma
coisa horrivelmente estúpida e francamente fascista. É a epítome do fenómeno
"deem um uniforme a uma módica quantia de autoridade a um grupo de pessoas
aparentemente normal e vejam-nas transformarem-se nos maiores filhos da mãe na
história da humanidade".
Muitas vezes chego à faculdade às oito da manha e
está escuro e frio e a chover e estão juventudes com penicos na cabeça a
fazer flexões na amálgama de lama-relva em frente à universidade. É triste. Não
acho saudável. No entanto, se a praxe fosse só obrigar jovens a fazer exercício
em condições desagradáveis e francamente pouco seguras eu provavelmente não me
chateava muito. Cardio faz bem a toda a gente. Mas o aspeto fetichista da coisa
incomoda-me (não que eu tenha nada contra fetichistas).
A praxe é, no fundo, um núcleo duro de misoginia
e homofobia (principalmente) coberto de camadas concêntricas de, vá,
merda.
Tenho amigas que tentaram ir à praxe mas que
desistiram depois do primeiro dia porque foram assediadas sexualmente. Conheço
gente gay que foi humilhada propositadamente na praxe por causa da sua orientação
sexual. Podem tentar argumentar que a praxe é joguinhos fofinhos para serem
todos amiguinhos da faculdade mas sinceramente em que plano de existência é que
isso faz sentido? Por acaso é comum por aí fora as pessoas conhecerem-se
simulando ter relações sexuais umas com as outras enquanto gente com autoridade
sobre elas observa? É comum vestir roupa interior por cima da
roupa normal e fingir-se ser-se escravo para ser vendido? Estou
a ficar maluca? Isto soa sequer remotamente normal?
Depois dizem que é para preparar as juventudes
para o mercado de trabalho. Fica uma mensagem para estas crianças: se
alguém alguma vez tentar este tipo de coisas com vocês no vosso emprego
apresentem queixa nos recursos humanos.
A verdade é que qualquer tipo de atividade que
envolva treinar um grupo de indivíduos para obedecer a outro cegamente sem justificação
plausível vai resultar apenas numa dinâmica muito esquisita e na destruição
da individualidade das pessoas envolvidas, o que, na minha opinião, vai
completamente contra aquilo que uma experiência universitária deve
ser. Para não falar de, por muito que custe às pessoas admitir, a praxe
fomenta uma cultura de bebedeiras e desleixo académico. Não tentem negar que
não vale a pena, eu já vi gente a beber cerveja antes das aulas da tarde. Não
enganam ninguém.
A verdade é que crescer é muito doloroso, eu
sei. Para não falar de que a universidade é horrivelmente
assustadora no início. Dizer às juventudes que, para receberam algum tipo
de orientação e camaradagem por parte dos alunos mais velhos (mesmo que,
em última análise, não seja verdade), precisam de passar por um ritual
esquisito de humilhação e submissão à grande e muy nobre instituição da praxe é
simplesmente sádico.
Perguntam-me muitas vezes por que é que me
indigno tanto se nunca fui praxada. Mas imaginem que existe um poço
cheio de cobras (não muito grandes e não muito venenosas) em
frente à universidade para onde, todos os anos, se atiram uns 50
alunos. Eles atiram-se de livre e espontânea vontade (embora digam por aí que
todos os cool kids se atiram e que só podes vestir um fato todo janota que te
identifica como membro do clube-das-pessoas-que-se-atiram-para-poço-com-cobras
se o fizeres) e alguns até se divertem no poço e arranjam por lá namorado mas
volta e meia alguém se magoa a sério ou faz uma reação alérgica e morre e deixa
um vazio horrível e impossível de preencher a alguém. Seria de esperar que a
câmara municipal ou a própria universidade decidissem que, se calhar, era
uma boa ideia vedar o poço ou mesmo realojar as cobras e cobrir tudo de terra e
plantar lá um carvalho.
Mas não. O poço fica e as cobras também. Passo
por elas todos os dias.
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