quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A bananalidade do mal


Eu sou virulentamente anti-praxe. Acho que é uma coisa horrivelmente estúpida e francamente fascista. É a epítome do fenómeno "deem um uniforme a uma módica quantia de autoridade a um grupo de pessoas aparentemente normal e vejam-nas transformarem-se nos maiores filhos da mãe na história da humanidade".

Muitas vezes chego à faculdade às oito da manha e está escuro e frio e a chover e estão juventudes com penicos na cabeça a fazer flexões na amálgama de lama-relva em frente à universidade. É triste. Não acho saudável. No entanto, se a praxe fosse só obrigar jovens a fazer exercício em condições desagradáveis e francamente pouco seguras eu provavelmente não me chateava muito. Cardio faz bem a toda a gente. Mas o aspeto fetichista da coisa incomoda-me (não que eu tenha nada contra fetichistas).

A praxe é, no fundo, um núcleo duro de misoginia e homofobia (principalmente) coberto de camadas concêntricas de, vá, merda.

Tenho amigas que tentaram ir à praxe mas que desistiram depois do primeiro dia porque foram assediadas sexualmente. Conheço gente gay que foi humilhada propositadamente na praxe por causa da sua orientação sexual. Podem tentar argumentar que a praxe é joguinhos fofinhos para serem todos amiguinhos da faculdade mas sinceramente em que plano de existência é que isso faz sentido? Por acaso é comum por aí fora as pessoas conhecerem-se simulando ter relações sexuais umas com as outras enquanto gente com autoridade sobre elas observa? É comum vestir roupa interior por cima da roupa normal e fingir-se ser-se escravo para ser vendido? Estou a ficar maluca? Isto soa sequer remotamente normal?

Depois dizem que é para preparar as juventudes para o mercado de trabalho. Fica uma mensagem para estas crianças: se alguém alguma vez tentar este tipo de coisas com vocês no vosso emprego apresentem queixa nos recursos humanos.

A verdade é que qualquer tipo de atividade que envolva treinar um grupo de indivíduos para obedecer a outro cegamente sem justificação plausível vai resultar apenas numa dinâmica muito esquisita e na destruição da individualidade das pessoas envolvidas, o que, na minha opinião, vai completamente contra aquilo que uma experiência universitária deve ser. Para não falar de, por muito que custe às pessoas admitir, a praxe fomenta uma cultura de bebedeiras e desleixo académico. Não tentem negar que não vale a pena, eu já vi gente a beber cerveja antes das aulas da tarde. Não enganam ninguém.  

A verdade é que crescer é muito doloroso, eu sei. Para não falar de que a universidade é horrivelmente assustadora no início. Dizer às juventudes que, para receberam algum tipo de orientação e camaradagem por parte dos alunos mais velhos (mesmo que, em última análise, não seja verdade), precisam de passar por um ritual esquisito de humilhação e submissão à grande e muy nobre instituição da praxe é simplesmente sádico.

Perguntam-me muitas vezes por que é que me indigno tanto se nunca fui praxada. Mas imaginem que existe um poço cheio de cobras (não muito grandes e não muito venenosas)  em frente à universidade para onde, todos os anos, se atiram uns 50 alunos. Eles atiram-se de livre e espontânea vontade (embora digam por aí que todos os cool kids se atiram e que só podes vestir um fato todo janota que te identifica como membro do clube-das-pessoas-que-se-atiram-para-poço-com-cobras se o fizeres) e alguns até se divertem no poço e arranjam por lá namorado mas volta e meia alguém se magoa a sério ou faz uma reação alérgica e morre e deixa um vazio horrível e impossível de preencher a alguém. Seria de esperar que a câmara municipal ou a própria universidade decidissem que, se calhar, era uma boa ideia vedar o poço ou mesmo realojar as cobras e cobrir tudo de terra e plantar lá um carvalho.

Mas não. O poço fica e as cobras também. Passo por elas todos os dias.

 

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