segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O bicho papão


Quando eu era uma proto-pessoa, os sites brasileiros eram o bicho papão. Sempre que algum professor mandava fazer um trabalho de grupo (daqueles com cartolinas feiozas porque no meu tempo PowerPoint era só para gente muito fina) havia um aviso no final: "E cuidado com os sites brasileiros que isso não vale nada e está tudo mal escrito".

 

Podemos discutir durante uma eternidade se afinal é o povo brasileiro que escreve mal ou se somos nós os portugueses que não sabemos encadear frases corretamente, até porque é bem possível que o português na altura da colonização tenha cristalizado por aqueles lados e o nosso é que se tenha tornado uma bastardização do puro e bom e muitíssimo verdadeiro português. Mas a questão aqui é outra (até porque pouco ou nada me interessa a maneira como as pessoas falam desde que se compreendam). Durante muitos anos acreditei nisto, que os sites brasileiros eram maus e ruins e não prestavam para nada. No entanto, isto é não só horrivelmente falso como muitíssimo pouco verdadeiro.

 

Há sites brasileiros maus? Pois claro mas arrisco-me a dizer que por cada site brasileiro mau há um português ainda pior. Sites portugueses há muito poucos e os que há são de uma pobreza realmente muito triste. O povo português não produz conteúdo e, aparentemente, tem raiva de quem produz. Há muito mais sites brasileiros do que portugueses e há muitos mais sites brasileiros muito melhores do que os sites portugueses (sobre muito mais coisas se não mesmo todas as coisas).

 

Eu que sou dada aos feminismos decidi andar à procura de feministas portuguesas que escrevessem coisas engraçadas (não coisas como as minhas que são muito palermas) e há muita coisa interessante mas olhem que as nossas irmãs brasileiras estão anos-luz à frente de tudo e de todos. 

Depois de anos de colonização e das consequências que daí surgem ainda por cima sofrem sexismo, violência e racismo a uma escala que nós aqui no rabo da europa nem conseguimos imaginar.  Para não falar de que incluíram mulheres trans no feminismo mainstream com imensa facilidade (que é algo que por vezes escapa até a feministas bem intencionadas).

 

Outro exemplo interessante é o da wikipedia. Quantas vezes ouvi dizer "ai a wikipedia em português é uma porcaria, está tudo escrito em brasileiro". Esta badalhoqueira foi repetida tanta vez que seria esperar que fosse obrigatório tatuá-la no rabo de todos os professores recém-formados. A wikipedia em português parece ser editada maioritariamente por utilizadores brasileiros e é piorzinha que a inglesa (não é só a versão portuguesa e desconfio que a culpa disso não seja do povo brasileiro. Desconfio) mas acham que estes palermas que gostam de dizer mal estao preparados para ir eles editar as páginas da wikipedia? Claro que não. Se os senhores da wikipedia fossem espertos não deixavam estafermos destes editar sequer um artigo sobre as unhas dos pés do Cavaco Silva mas como ainda não tiveram esse insight há literalmente zero impedimentos de irem lá preencher as muy importantes lacunas de que se queixam.

 

Como o meu paizinho dizia

 

"Não fodem nem saem de cima"

 

Há gente que não se enxerga.  

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