terça-feira, 23 de setembro de 2014

Nem a brincar

Há uns dias um colega meu da faculdade ficou muito admirado quando eu lhe expliquei que a minha mãe não tinha tempo para me levar à universidade de carro todos os dias. Afinal, não só tenho boas pernas para andar e um passe de autocarro, como a minha mãe não tem mesmo tempo para servir de motorista privada, disse-lhe eu. O que ele respondeu a isto foi o seguinte:

 
"A tua mãe não trabalha, como é que não tem tempo?"

 
Ora, a minha mãe é dona de casa. É um nome um bocado estúpido e antiquado que acarreta um estigma mesquinho, por isso nunca foi muito bem aceite cá em casa (e com razão). É um termo redutor. Quando era mais nova tinha sempre grandes dificuldades em decidir o que escrever naquelas folhinhas de informação pessoal que distribuíam na escola que perguntavam, entre outras coisas, qual a profissão da minha mãe. Durante uns anos escrevi tradutora (coisa que fez durante algum tempo de forma mais ou menos exclusiva) mas depressa tornou-se uma definição um bocado limitativa de tudo o que a minha faz que se enquadra na categoria de trabalho. Nos meus últimos anos de ensino obrigatório comecei a escrever artista. É um título que engloba uma grande quantidade de profissões e ofícios difíceis e que requerem talento mas que são muitas vezes ignorados ou menosprezados. É um paralelo interessante. 

 
A minha mãe criou três seres humanos produtivos e razoavelmente bem integrados na sociedade, é uma metade bastante sólida do casamento mais bem-sucedido que alguma vez vi, mantém uma casa bastante grande em condições habitáveis, leva (e traz) uma quantidade variável de crianças à escola/natação/música/cinema, leva o cão à rua várias vezes ao dia, dá banho ao cão (e às vezes também a uma quantidade variável de crianças), gere as finanças do household e apoia as aventuras empresariais do meu pai desempenhando uma quantidade enorme de papeis, compra roupa para a família toda (incluindo para o cão) e cozinha todas as refeições que comemos. A minha mãe gere crises melhor que o Dr. Phil. Para não falar dos trabalhos de casa que corrigiu e dos projetos de grupo em que teve que participar (nem sempre voluntariamente) e nas associações de pais em que trabalhou.

 
Isto é apenas uma amostra das coisas que a minha mãe tem feito ao longo dos anos em que a conheci. No entanto, este tipo de atitude dismissive para com as "donas de casa" é uma coisa que é bastante generalizada. A minha mãe ouviu muitas bocas destas ao longo dos anos de gente que provavelmente imagina que as donas de casa passam o dia a ver televisão com uma caixa de chocolates ao colo e rolos no cabelo.

 
Vivemos numa sociedade tao disposta a desvalorizar tudo aquilo que é tradicionalmente feminino que nem sequer são capazes de admitir que ser "dona de casa" é efetivamente cansativo e *gasp* difícil. Vivemos numa sociedade que promove a ideia que é claro que toda a gente gostava de ficar em casa a passar tempo com os filhos porque é tão mais fácil e melhor do que trabalhar das nove às cinco e que essas pessoas é que são os verdadeiros hérois por trabalharem fora de casa. Oiçam, eu não estou a negar que é difícil trabalhar em ambientes convencionais, é óbvio que é, mas muitas vezes as pessoas esquecem-se que criar crianças e gerir um household não incluí só as partes boas e que 90% do tempo as crianças são horríveis - uns absolutos psicopatas.

 
Se ser dona de casa fosse uma profissão levada a sério, garanto-vos que a minha mãe estaria no topo 5% das donas de casa. A minha mãe é boa no que faz. Muito boa. Mas ninguém quer saber. A minha mãe tem um skill set muito raro que devia ser valorizado e ninguém quer saber. A minha mãe já fez e conquistou mais do que a average person. No entanto, um palermóide filho único que nunca trabalhou um dia na vida tem a lata de dizer que a minha mãe não trabalha e sente-se perfeitamente validado ao fazê-lo porque nunca ninguém lhe pagou para fazer o que faz.

 
E isto, meninos e meninas, é a razão pela qual noções capitalistas de trabalho são coisas muito tristes e prejudiciais na nossa sociedade.     
 
 

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