Há uns dias um colega meu da faculdade ficou
muito admirado quando eu lhe expliquei que a minha mãe não tinha tempo para me
levar à universidade de carro todos os dias. Afinal, não só tenho boas pernas
para andar e um passe de autocarro, como a minha mãe não tem mesmo tempo para
servir de motorista privada, disse-lhe eu. O que ele respondeu a isto foi
o seguinte:
"A tua mãe não trabalha, como é que não tem
tempo?"
Ora, a minha mãe é dona de casa. É um nome um
bocado estúpido e antiquado que acarreta um estigma mesquinho, por isso nunca
foi muito bem aceite cá em casa (e com razão). É um termo redutor. Quando era
mais nova tinha sempre grandes dificuldades em decidir o que escrever naquelas folhinhas
de informação pessoal que distribuíam na escola que perguntavam, entre outras
coisas, qual a profissão da minha mãe. Durante uns anos escrevi tradutora
(coisa que fez durante algum tempo de forma mais ou menos exclusiva) mas
depressa tornou-se uma definição um bocado limitativa de tudo o que a minha faz
que se enquadra na categoria de trabalho. Nos meus últimos anos de ensino
obrigatório comecei a escrever artista. É um título que engloba uma grande
quantidade de profissões e ofícios difíceis e que requerem talento mas que são
muitas vezes ignorados ou menosprezados. É um paralelo interessante.
A minha mãe criou três seres humanos produtivos e
razoavelmente bem integrados na sociedade, é uma metade bastante sólida do
casamento mais bem-sucedido que alguma vez vi, mantém uma casa bastante grande
em condições habitáveis, leva (e traz) uma quantidade variável de crianças à
escola/natação/música/cinema, leva o cão à rua várias vezes ao dia, dá banho ao cão (e às vezes
também a uma quantidade variável de crianças), gere as finanças do
household e apoia as aventuras empresariais do meu pai desempenhando uma
quantidade enorme de papeis, compra roupa para a família toda (incluindo para o
cão) e cozinha todas as refeições que comemos. A minha mãe gere
crises melhor que o Dr. Phil. Para não falar dos trabalhos de casa que
corrigiu e dos projetos de grupo em que teve que participar (nem sempre
voluntariamente) e nas associações de pais em que trabalhou.
Isto é apenas uma amostra das coisas que a minha mãe
tem feito ao longo dos anos em que a conheci. No entanto, este tipo de atitude
dismissive para com as "donas de casa" é uma coisa que é bastante
generalizada. A minha mãe ouviu muitas bocas destas ao longo dos anos de gente
que provavelmente imagina que as donas de casa passam o dia a ver televisão
com uma caixa de chocolates ao colo e rolos no cabelo.
Vivemos numa sociedade tao disposta a
desvalorizar tudo aquilo que é tradicionalmente feminino que nem sequer são
capazes de admitir que ser "dona de casa" é
efetivamente cansativo e *gasp* difícil. Vivemos numa sociedade que promove a ideia que é claro que toda a gente gostava de ficar em casa a passar tempo com os filhos porque é tão mais fácil e melhor do que trabalhar das nove às cinco e que essas pessoas é que são os verdadeiros hérois por trabalharem fora de casa. Oiçam, eu não estou a negar que é difícil trabalhar em ambientes convencionais, é óbvio que é, mas muitas vezes as pessoas esquecem-se que criar crianças e gerir um household não incluí só as partes boas e que 90% do tempo as crianças são horríveis - uns absolutos psicopatas.
Se ser dona de casa fosse uma profissão
levada a sério, garanto-vos que a minha mãe estaria no topo 5% das donas de
casa. A minha mãe é boa no que faz. Muito boa. Mas ninguém quer saber. A minha mãe
tem um skill set muito raro que devia ser valorizado e ninguém quer saber. A
minha mãe já fez e conquistou mais do que a average person. No entanto, um
palermóide filho único que nunca trabalhou um dia na vida tem a lata de dizer
que a minha mãe não trabalha e sente-se perfeitamente validado ao fazê-lo
porque nunca ninguém lhe pagou para fazer o que faz.
E isto, meninos e meninas, é a razão pela qual
noções capitalistas de trabalho são coisas muito tristes e prejudiciais na
nossa sociedade.
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